Ciência: Novos Métodos são Possíveis…
UMA NOVA POSSIBILIDADE DA INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA
Simoni Teixeira do Canto
Resumo
A presente pesquisa tem como objetivo contribuir para o avanço do esclarecimento da demarcação do que seja a intervenção psicológica e seus desdobramentos, especificamente empreende um resgate da produção teórica e fundamentadora das psicologias vigentes e a proposta de uma nova estratégia de intervenção. Os dados foram obtidos através de consulta bibliográfica e indicam que existem duas correntes distintas de abordagem psicológica: uma vertente analítica clássica, e, portanto, idealista subjetivista e dualista, e uma vertente materialista histórica, , tais pesquisas transitam entre duas soluções distintas para a definição de psíquico: uma caracterizada pelo retorno ao pensamento analítico clássico, e outra com diretrizes para uma psicologia politicamente correta. Verificou-se que nas produções analisadas não há uma demarcação e definição de psíquico a partir de elementos concretos e objetivos, e, portanto, passíveis de verificação científica. No caso específico da vertente materialista histórica, da dialética existencialista, consegue-se intervir num homem concreto sem precedentes metafísicos e com possibilidade de uma intervenção pautada em controle e crítica de resultados, tal como em qualquer outra intervenção É mister que se faça, em termos científicos, essa articulação entre antropologia, epistemologia e psicologia, definindo assim qual o objeto de estudo que confere a ciência psicológica.
Palavras Chave: Epistemologia, Ciência, Conhecimento, Psicologia.
Visando esclarecer a temática do conhecimento Sartre retomou todo um caminho rumo à ontologia, caminho esse que deveria ser feito, impreterivelmente, por todos, mas que só Sartre o fez.
Os teóricos que se negaram a percorrer tal estrada filosófica, são os que defenderam, sem mesmo se dar conta, a não destruição do Muro das Lamentações, já que esse seria a solução última para quem padecesse de algo e precisasse da ajuda de algum deles.
O idealismo que imperou até Sartre, ainda continua a por pessoas atrás do tal Muro, já que toda a “ ciência psicológica “, exceto a psicologia Existencialista Sartreana, é governada por princípios metafísicos. Em termos gerais, ou se reduz o objeto psicológico apenas a matéria, acatando o positivismo e, desse jeito, absolutizando a matéria. Ou se entra noutra metafísica onde a questão humana e seus correlatos psicológicos ficam sempre definidos ‘a priori’ e impedindo o desenvolvimento. (CASTRO, 2001, p. 171).
Mas há ainda outra saída e pretendemos mostrá-la aqui, como disse Confúcio:
A saída é pela porta. Por que eles não saem? Ou é porque não vêem a porta ou porque não conseguem mover-se para ela. [1]
No trabalho atual, pretende-se fazer um trajeto desde o Pensamento Moderno até Sartre, utilizando-se do tema do conhecimento e a problemática de sua sustentação.
Passando pela descrição das teorias existentes e representantes do tema, pela implicação e conseqüência de cada uma delas, chega-se a uma síntese reflexiva proposta como requisito de nossa pesquisa, e com fins a uma melhor demarcação do que se pretende a metodologia sartreana, novo instrumento da psicologia.
Ciência e Pensamento Moderno
Se quisermos entender o que a Ciência realmente é, devemos considera-la em primeiro lugar e acima de tudo como uma sucessão de movimentos dentro do movimento histórico mais amplo da própria civilização. (KNELLER, 1980, p. 13).
De fato, se resgatarmos os feitos de muitos cientistas, nos parecerão, a nosso tempo, absurdas suas constatações; porém, como podemos valorizar tais proposições científicas sem inseri-las numa gama de acontecimentos contemporâneos a elas? Como poderemos dizer, honesta e justamente, que não eram elas acertadas e cabíveis para época, considerando as condições de possibilidade que tinham tais homens ao colocarem em voga uma descoberta?
De certo que, não seria satisfatório, quanto mais eficaz, arrastarmos a antiguidade até nós como instrumento de intervenção atual. Mas, é condição indescartável, para que estejamos corretos em nossa compreensão, que resgatemos as bases sobre as quais caminham hoje, nossa graça ou desgraça.
A ascendência ou derrocada das teorias propostas pelos homens da ciência, podem lograr, diante do sucesso ou desastre constatado, uma maior implicação com a realidade social e com os homens dos quais fazemos-nos responsáveis; e que por passividade diante de um problema[2], tornam-se objetos diante de nós. Por nossa parte[3], se isto acontecer, estaremos evoluindo. Não mais então, estaremos aí na condição de alguém que emana sabedoria, mas nos destacaremos por ocupar um lugar de direito dos verdadeiros cientistas.
Retroceder nos tempos a procura da evolução de um fenômeno como a ciência, já é um ato que nos dá espaço invejável, não por conceder algum tipo de status social, mas por ser uma variável que poderá viabilizar não só nossas vidas como profissionais, como também, a vida de quem se submeter a nossas futuras intervenções.
Por um momento enquanto escrevia, tornei-me consciência de minhas palavras e pareceu até que estava defendendo-me de uma suposta acusação ou algo do gênero… Aí, numa nova tomada reflexiva, impõe-se diante de mim o fato de que muitos já fizeram de suas pesquisas e engajamento pessoais, motivos para o fim da vida de familiares, ou mesmo, suas próprias vidas. Talvez isso não traga, de pronto, um lucro que se conote teórico. Entretanto, o intento primeiro desse quase devaneio, é que sejamos puxados por um futuro que contemple o passado admirável da nossa ainda recente ciência. E a maneira de contempla-lo, isso me parece imediato, é tomarmos atitudes concretas para a superação da lamentável realidade que aí está posta, qual seja, a realidade dos muitos ditos cientistas que estouram com vidas por medo de usar a cabeça para outra coisa que seja sustentar as orelhas.
Bom, após esse desabafo, tomemos nosso objetivo a priori, como a ciência vem constituindo-se e a que totalização chegou até o momento?
Desde os tempos mais remotos o homem esteve à procura de solucionar algumas questões do tipo: Qual a ordem que existe no movimento da natureza? O que é esse mundo? E os homens o que são nesse mundo? E mais: Quem criou o mundo e esse homem?
Bem sei que, num primeiro momento, já cabe colocar: mas a ciência não é responsável por responder tais perguntas. Porém, isso parece claro agora[4], depois de todo empenho de estudiosos para distinguir e demarcar o objeto de cada disciplina. Mas não era, necessariamente, claro, aos que tentando responder a essas perguntas, propagaram o título falso de serem científicos.
(…) a formação do mundo e de seus habitantes, do mesmo modo que o lugar da revolução científica, na História, eram vistos, durante os séculos XVII e XVIII, como um simples acontecimento criador que, uma vez consumado, era eternamente perdurável e perfeito, em caráter definitivo. (Mason, 1964, p.256).
A ditadura teórica que alguns pesquisadores quiseram impor, por essa época, e acabaram por difundir, promoveu a submissão de muitas culturas a um mito que controla a tudo e a todos, deixando espaço nulo para que os submetidos saiam da condição de coisa, que lhes foi outorgada, para a condição de sujeitos que são, por direito e possibilidade. Qual não seria esse mito?! É ele mesmo, o mito da Razão, da Verdade Absoluta, da qual todos seríamos servos e observantes, senão encontrássemos outra saída que os dualismos que logo entram em questão.
Esclarecendo então: produção humana, a ciência é histórica, cumulativa, evolui numa sucessão de soluções encontradas e novos problemas propostos. Como tais as conclusões científicas são, em última instância, conjecturais, a Ciência pode sempre criticar-se e transformar-se. (KNELLER, 1980, p.32)
Ciência consiste em investigar fenômenos, ou seja, um conjunto de ocorrências objetivas, articuladas e transcendentes ao sujeito que o investiga (BERTOLINO, 2000). O que cabe à ciência é demarcar esses fenômenos, defini-los, enquadrando-os num universo, qual seja, agrupando-os em conjuntos conforme suas regularidades estatísticas. A verificação objetiva dessas regularidades garante que o que for constatado para um singular do conjunto pode predizer não só a respeito desse singular, mas se remeterá também ao universo estabelecido pelas regularidades já observadas.
É esse o caminho percorrido pelos construtores do pensamento moderno? Não. Veremos adiante o porquê.
Os dualismos, o maniqueísmo, o recurso ao infinito
No bojo de toda teoria desde Descartes até Husserl, ou melhor, desde o século XVI – com a Idade Clássica até o século XX – com a Idade Contemporânea (BERTOLINO, 2002), está presente o idealismo, qual seja, a tentativa de solucionar a problemática da sustentação do conhecimento com recurso a sustentação metafísica, para além do que chamaria Hegel mais tarde, finito.
(KANT apud ABBAGNANO, 1998, p. 523) é quem estabelece o idealismo, conceituando-o como a teoria que declara que os objetos existem fora do espaço ou simplesmente que sua existência é duvidosa e indemonstrável, ou falsa ou impossível.
Logo, aparecem os seus representantes: Descartes, Berkeley, Hegel, Husserl e tantos outros. Descartes com sua lógica indizível do penso logo existo, Berkeley, com uma nova vestimenta do cartesianismo, com seu ato em potência, Hegel, considerando irreal o que é finito e declarando o absoluto no infinito; e por fim, Husserl, que acabou por encerrar na imanência o que, por princípio, desejava ser científico. (ABBAGNANO, 1998, p. 524; FRAGATA, 1959)
Fruto maduro da árvore do idealismo, o maniqueísmo solicita o cabo-de guerra que se mantém até hoje. De um lado, a Razão, mais expressa culturalmente por Deus e de outro, a Ciência, confundida como a representante na terra do, mais conhecido, Diabo.
Onde paramos então com o pensamento moderno? (Que vigora até hoje!) Senão involução epistemológica e na invalidação social da superação, que surgiu com Sartre, e que foi oculta pela lógica da exclusão.
O axioma idealista propõe um homem dualista, ou seja, o homem como síntese de duas instâncias distintas e faccionadas: corpo/mente, eu interior/exterior, ato/potência, corpo/alma, ou ainda, finito/infinito.
Um dos pensadores afins com essa concepção de homem foi René Descartes (1596- 1650)[5] com o ‘cogito’, ou seja, propunha um ‘eu’ pensante e independente de tempo e espaço e um ‘eu’ corpo, capacitador das manifestações desse ‘eu pensante’.
Filósofo do século XVII, como pontua Castro (1996, p. 76-79), Descartes traduz o método racional na tentativa de produzir um conhecimento científico buscando na Razão os fundamentos de uma ciência capaz de diluir a diversidade e ineficácia na resolução de problemas. Descartes retoma a idéia grega do dualismo mente/corpo com o pressuposto de que a razão é inata no homem e que a ciência é inerente a ela.
No trajeto epistemológico da psicologia, de acordo com Ehrlich (1994, p. 23-26), Descartes retrocede, impossibilitando a investigação do fenômeno e produção do conhecimento a partir do próprio objeto de estudo. Nega a possibilidade do rompimento místico e mantém a fé como única possibilidade certeza. Sua idéia de que duvida logo pensa, pensa logo existe, diz que não é outra coisa e nada mais do que pensamento, uma substância pensante que não depende de corpo ou mundo para pensar.
Partindo dessa verdade apodítica, não nega a possibilidade de se fazer experimentações, não para produzir conhecimento, mas para “despertar” idéias inatas introjetadas no ser humano por Deus (Razão). Desse modo, a natureza, o corpo e o universo se organizam conforme as leis divinas. Ante a investigação de fenômeno, verdades serão incitadas, ao descobri-las, descobrir-se-á Deus.
(…) compreendi que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas em pensar, e que para ser, não necessita de qualquer coisa material. de modo, que se eu, isto é, a alma pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo e, (…) ainda que o corpo nada fosse, a alma não deixaria de ser tudo o que é. (DESCARTES, 1989, p.56)
Edmund Husserl (1859-1938), o filósofo alemão criador da fenomenologia, também produziu uma teoria de cunho dualista. O intento de estudo prioritário de Husserl era o tema do conhecimento e suas soluções, isto é, Husserl, de acordo com Fragata (1959), pretendia tratar de questões epistemológicas da relação sujeito-objeto.
Na pretensão de alcançar seus objetivos de pesquisa, Husserl encaminha-se para uma produção de conhecimento metafísico adquirindo similaridades teóricas com Descartes e seu projeto cartesiano, busca como fundamento uma verdade absoluta que lhe seja eterna e indiscutível e que possa garantir-lhe independência do conhecimento em relação a qualquer homem ou coisa. Na ânsia de chegar à solução de seus questionamentos Husserl se convence de que a “verdadeira” verdade se auto-expõe, evidencia-se a si mesma como Razão Absoluta. (Cf. EHRLICH, 1994, p. 9)
Aí, de forma inquestionavelmente metafísica, Husserl lança seus conceitos de Apoditicidade (verdade de caráter absoluto, sem probabilidade de dúvidas) e de Eu Transcendental (eu puro e habitante em cada homem, alcançado apenas por manifestações) que se apoiarão numa consciência consubstancial e relacional dos mesmos.
A consciência transcendental é o campo das evidências apodíticas em virtude da união íntima sujeito-objecto, que encontra a sua plena explicação no esclarecimento da ‘constituição transcendental’, relativa ao modo como o objecto se ‘constitui’ ou forma na consciência pura. (FRAGATA, 1959, p. 119)
Encerrando seu estudo no campo da imanência, das coisas transcendentais, Husserl nega a possibilidade de se encontrar a verdade na realidade objetiva. E diz, A ‘realidade’ (…) encontro-a (…) existindo diante de mim e admito-a como se me apresenta, também como existente’. (HUSSERL apud id. ibid, p. 102) Não nega que a mesma exista, porém coloca-a como duvidosa e inutilizável por apresentar-se em perfis, dos quais, seria impossível intuir o ser das coisas e a garantia numa verdade apodítica. (Cf. op.cit, p. 67-73, 104-105)
O supremo grau de perfeição verificar-se-ia na adequação plena, em que a realidade transpareceria numa posse integral do objeto e, portanto dum modo absoluto. Teríamos então a garantia primordial para uma ‘evidência apodítica’. (id. ibid, p. 68)
Descartando a exterioridade, Husserl encontra na subjetividade pura a solução para sua procura idealista[6]. Promove o conhecimento como inerente a uma transcendência última manifesta por um ‘eu’ também puro[7] e existente antes, dissonante e para além da objetividade.
põe fora de circuito a realidade da natureza - mesmo a realidade do céu e da terra, dos homens e dos animais, do próprio eu e do eu alheio, mas retém por assim dizer, a alma, o sentido de tudo isto.(HUSSERL apud FRAGATA, ibid, p. 113)
Engajado na exploração de uma experiência transcendental, Husserl declara a consciência como substancial, projetora, denominando-a como a possibilidade de relação entre o ‘Eu Transcendental’ e o ‘Objeto’ existente. Mais que isso, postula que tais objetos são constituídos por essa consciência transcendental que projeta-se a fim de criar, de significar o mundo…
… o campo das objetividades é portanto inconcebível anteriormente (…) a atividade doadora do eu (id. ibid, p. 155).
Como instrumento de captação desse ‘Eu Transcendental’, Husserl propõe a ‘Epoché’ ou redução, coloca como primordial que se suspenda qualquer juízo falso vindo desse mundo enganoso. Tal redução se comporia, ou se dividiria, em duas reduções: a psicológica e a transcendental.
A redução psicológica se subdividiria, então, na redução ao fenômeno e a eidética. Nesse momento o objetivo é a abstração do transcendental do mundo exterior/ objetivo, restringindo à imanência a seqüência da investigação, ou seja, utilizando-se apenas daquilo que aparece à consciência, ao psicológico. Temos que começar pelas <coisas> como elas se revelam na sua pureza insofismável, e, portanto, prescindir do seu caráter existencial (id. ibid, p. 50).
Ainda assim Husserl não se convence de que a Verdade Absoluta se auto-exponha, precisa então de mais uma redução, a eidética que consistiria na busca das essências que se apresentam na experiência psicológica, porém de maneira comum em todos os fenômenos singulares, conserva[ndo] portanto um caráter psicológico, embora num sentido já metaempírico, porque independe da verificação do facto singular (id. ibid, p. 96).
Dando continuidade a seu axioma teórico já postulado por Descartes, a dúvida, Husserl reduz também o ‘eu psicológico ou empírico’ atribuindo-lhe um caráter mundano, por isso infundável na busca da verdade absoluta. O ‘eu’ com suas actividades - pensar, querer, sentir (…) fenômenos conscientes considerados como realidades existentes concretamente (id. ibid, p. 111).
Ao desistir até mesmo do ‘eu psicológico’ Husserl chega a redução transcendental, a subjetividade pura. Segundo ele, nessa instância habita o ‘eu absoluto’, o projetor da consciência imanente. Husserl coloca,
Pela epoqué fenomenológica, reduzo meu eu natural e humano e a minha vida psíquica - o campo da minha experiência psicológica - ao meu eu transcendental fenomenológico, o campo da auto-experiência transcedental fenomenológica (id. ibid, p. 112).
Colocando a apoditicidade ou ausência de dúvida no campo da imanência, isto é, num mundo transcendental sem localização espaço-temporal, sem pressupostos materiais e sem possibilidades de verificação, Husserl termina por encerrar seu ideal, a priori, científico.
Conseqüência para a Psicologia (subjetivismo)
De diferentes maneiras, mas com instrumentos similares, todos, aqui já vistos, arranjaram-se com o idealismo, já que não creditaram à objetividade sua propriedade principal de absoluto que abre possibilidade de sustentação para a ciência.
Por conseqüencia e infelizmente, a Psicologia que temos, se for alicerçada nessa pretensa ontologia, ou melhor, nessa ontologia metafísica, está de modo irremediável condenada a ficar à margem da ciência.
Como dar o status de ciência, a busca de um ser inacessível que garante-se para além de qualquer verificação objetiva? E ainda, como não ver o mal que isso faz a humanidade, já que essa Psicologia atrasada, é a que está em vigência não só nas academias, como também nas intervenções dos psicólogos, que, por dever, tinham que dar conta de superar os problemas de relações humanas ou problemas psicológicos, mas que na prática, arrastam seus “clientes” [8] por longas datas, para que possam manter a “picaretagem” que fazem como sustentabilidade de suas vidas pessoais.
Bem se vê, que a ética é a primeira coisa que foi exclusa do horizonte da psicologia… Como não fosse suficiente, a falta de empenho em estudar, ainda há a falta de respeito que certos profissionais cometem ao vulgarizarem as vidas alheias à simples conjecturas e interpretações que prestam contas apenas a um inconsciente, ora revestido de potencialidade, ora chamado de tendência atualizante, e nos casos mais simplistas, posto como um fluir incessante que não controla seu manifestar.
Uma ‘psicologia’ com uma teoria da personalidade cujos pressupostos vem da fenomenologia husserliana ou de qualquer outro representante do idealismo, encerra as suas soluções nas bases que as sustenta. Uma ‘psicologia’ que se apóie em fundamentos mentalistas trará o cunho metafísico de estar buscando um ‘eu’ que jamais encontrar-se-á, senão pela aparição de um ‘eu interior’ que se entrega por pura manifestação.
Uma Possibilidade Inovadora
Como já propunham Marx, Politzer, Vygotski, Sève e Sartre que reivindicavam uma definição de psíquico diferente da analítica. É preciso
que se faça um rompimento com as especulações à respeito de um ser humano abstrato, em direção aos homens reais, de carne e ossos, tal como agem e vivem realmente em situações materiais objetivamente dadas. Apreender o homem concreto, suas relações e suas condições materiais de existência, que torna compreensível toda e qualquer ação humana. (CASTRO, 2001, p. 158)
Politzer citado por Castro (2001, p. 159) diz que a psicologia, já na década de 20, passa por uma crise, qual seja, da demarcação do seu objeto de estudo. Tal fato fica patente pela inconsistência dos resultados alcançados nesta disciplina que ora alicerça-se biologicamente, e ora cai nos fundamentos espiritualistas.
a psicologia em sua gênese e evolução, na ânsia de conhecer com rigor científico a realidade, realizou um erro de princípio, qual seja, conceber ‘a priori’ seu objeto à partir das noções herdadas do idealismo. Idealismo que inventou um ‘mundo interior’dentro do homem, onde se imaginou habitar os fenômenos psicológicos.(POLITZER apud CASTRO, 2001, p. 160)
Vygotski também reafirma tal crise na Psicologia, dizendo que a mesma, por um desejo de supremacia, acaba por recorrer ao infinito. Ao tentar explicar todas as coisas, finda por abandonar a realidade objetiva que garante sua explicação. Desta sorte que, ao descobrir uma explicação para um fenômeno a postula para outros fenômenos que não o mesmo do princípio da descoberta, e que, portanto, já não comporta a mesma realidade objetiva. (Cf. CASTRO, 2001, p.165-166)
Existe pois uma tendência a estabelecer um princípio explicativo unitário e a que este atue a partir de fora dos limites em que nasceu a ciência, convertendo-se desse modo num princípio explicativo, não mais das categorias da realidade, e não só da ciência em que surgiu, mas do sistema científico em sua totalidade.(VYGOTSKI apud CASTRO, 2001, p. 166)
Sève apud Castro (2001, p.169) é outro autor que discute o proposto por Politzer e Vygotski, afirmando que a psicologia é imatura como ciência. Reconhece tal imaturidade por três aspectos que caracterizam a maturidade da ciência, e que faltam na psicologia: a definição de um objeto, ‘conceitos de base’e ‘leis fundamentais de desenvolvimento’deste objeto.
Para corroborar sua afirmação de que a psicologia ainda desconhece seu objeto, Sève se apóia em psicólogos em tais como Wallon, Piaget, Leontiev e outros. Para ele,
esta persistente imaturidade, manifesta-se logo de início, na incerteza em que se encontra ainda à psicologia a respeito da questão mais vital que se coloca a toda ciência: a definição rigorosa do seu objeto, da delimitação coerente de seu âmbito, logo, da captação da própria essência daquilo de que pretende constituir-se com ciência (SÈVE apud CASTRO, 2001, p. 170)
Os conceitos e descrições do que seja uma personalidade e seu desenvolvimento estão, num fluxo lógico e indissociável, subentendidos numa compreensão antropológica que se remete a ontologia, estabelecidas como égide dos princípios psicológicos. Pensar uma psicologia e seus postulados sem questionar tais fundamentos é o mesmo que pensar um moinho sem a mola propulsora de seu ofício. Afim de iluminar o entendimento da multiplicidade teórica a respeito da personalidade e seu desenvolvimento, o empreendimento de Sartre transcendeu qualquer expectativa daqueles que investigam as soluções teóricas que tracejam o caminhar da psicologia e conotam os idealismos expostos preliminarmente.
Dialética Existencialista
Alicerçado antropologicamente no materialismo dialético, o existencialismo vê o homem como um ser histórico-social, concreto e movimentando-se dialeticamente por meio da ação, vista como práxis ou atitude prática real e objetiva (Cf. LAING e COOPER, 1982, p. 25-29).
A dialética existencialista adota do materialismo dialético a idéia conceitual de que a existência é primeira em relação à essência, designando à essência como resultante dessa relação existência/consciência, ou ainda, da relação corpo/consciência-mundo. A posição extremista de que a essência é dada a priori cai por terra e a ontologia passa a “caminhar” no mesmo sentido da antropologia.
A subjetividade que outrora era o princípio do idealismo, agora é um momento do processo objetivo no qual a exterioridade é interiorizada. Não é senão uma totalização pronta para ser destotalizada (Op.cit).
[E] Somente uma teoria assim fundamentada pode eliminar toda a ilusão idealista e mostras o homem real em meio a um mundo real, mas este realismo supõe um ponto de partida reflexivo: isto é, atingimos a revelação de uma situação na práxis e através da práxis que a modifica. (ib.ibid, p. 29)
Existencialismo
Jean Paul Sartre (1905-1980), um filósofo francês, embasado na fenomenologia de Husserl, na antropologia de Kierkegaard (1813-1855) e, epistemologicamente, firmado no materialismo histórico-dialético, é o representante eminente do Existencialismo Moderno. Da teoria husserliana retira a proposta da “volta às coisas mesmas” fundamentadas numa realidade concreta, do teórico Kierkegaard resgata a singularidade da existência do homem, colocando como um ser real num mundo objetivo, e do materialismo histórico-dialético, de Marx e Engels, aproveita o conceito de homem como sujeito inexoravelmente histórico-social. O Existencialismo Moderno é, dessa maneira, uma síntese dos elementos supra citados. Caracterizando-se pela superação do idealismo das psicologias convencionadas na dicotomia dos extremos, qual sejam, as psicologias unicamente objetivistas e, as psicologias do pleno subjetivismo. (Cf. CASTRO e SCHNEIDER, 1998, p. 139-141)
Nessa compreensão teórica o homem não é, a princípio, passível de uma conceituação, porque não é nada, estabelecendo-se como homem face à construção real e gradativa de si mesmo. (Cf. SARTRE, 1987, p. 6)
Nascer, nesse sentido, é o começo de tudo, e ao mesmo tempo, o começo do nada.. É o princípio da pretensão contingente de se fazer homem, contingente devido à inexorável exposição à materialidade que se impõe irredutivelmente após tal nascimento. Nascer é ser expelido para um mundo objetivo sem dar-se conta dessa objetividade, é ser apenas, estar concretamente existindo sem saber dessa existência. Assim, o homem nasce corpo/consciência. Corpo posto o conjunto de órgãos biológicos que é, e consciência, na medida em que é capaz de se fazer mais que esse ser existente, concebido e objetivado.
Quando de encontro com a realidade, enquanto corpo/consciência, esse homem que ainda não é homem, passa a viver relações com o mundo que lhe rodeia. Um mundo constituído a partir da cultura ¾ com suas crenças, valores e estruturas sociais como a família e a escola ¾ da linguagem, da arte, da ciência.
Enfim, passa a ser em relação com a organização de que o mundo é feito, enquanto realidade historicamente construída e enquanto realidade bruta, com vistas à sua materialidade, como já exposto antes (Cf. SARTRE citado por CASTRO e SCHNEIDER, 1998; COOPER e LAING, 1982; et alli ).
O pretenso homem é lançado ao mundo imergindo num “útero” que já não é mais biológico, mas social, e que lhe impingirá possibilidades e limitações anteriores a qualquer tipo de definição do que seja ele mesmo. O homem, afinal, se fará mediante essa ‘mistura’ da objetividade e da capacidade de subjetivá-la, numa mescla progressiva de relações com a materialidade e com outros seres com seu ser, que, a priori, apenas existe. E que se definirá sendo produto e produtor de si mesmo, produto face à incapacidade de cessar-lhe as possibilidades e contingências materiais, e produtor, visto sua condição humana de transcender à própria materialidade indo além da pura relação estabelecida. (Cf. SARTRE, 1987, p. 9-16)
Transcender é hominizar-se, particularizando-se num determinado “eu”, com características distintas de qualquer outro, e, no entanto, peculiares à espécie humana. Transcender é produzir-se essência em plena existência concreta. Essência, que por ser segunda em relação à existência, começa a ser traçada na infância, no já citado útero social constituído da família e suas relações (Cf. SCHNEIDER, 1993, p. 4; LEONE, 1999, et alli ).
Sartre citado por Ehrlich (1996, p. 69) afirma a concepção de um “Eu” transcendente, cujas características psicológicas são resultado de uma articulação de experiências processadas desde as ações mais simples até os estados e as qualidades, totalizados num ser singular, com sentimentos e atitudes peculiares que se fazem referentes a essa construção.
Um Eu se constitui, é um objeto transcendente. E só é esse Eu, na medida em que possui a consciência e suas possibilidades. De acordo com Ehrlich (1996, p. 56) há Ego porque há consciência, e jamais o contrário.
Constituindo-se, como disse Ehrlich (1996, p. 63), a partir experiências de atração e repulsão que se dão na vida de relações do sujeito, com o mundo, com as coisas, com os outros, esse Eu adquire certos Estados, que se farão referentes a um passado e um futuro de ser. Experiências essas que, em primeiro plano se darão irrefletidamente, e que depois, por meio de reflexões críticas, serão totalizadas nesse Eu. Como aponta Sartre apud Ehrlich (id. ibid, p. 63):
Tudo se passa como se nós vivêssemos num mundo em que os objetos, além de suas qualidades de calor, odor, forma, etc, tivessem as de repulsivo, atrativo, encantador, útil, etc., etc., e como se essas qualidades fossem forças que exercessem sobre nós certas ações.
Mediante as experiências de atração ou repulsão, o sujeito toma determinadas atitudes, ou seja, ações que, ainda que sejam irrefletidas, o levarão para um ou outro rumo. Ações cotidianas, como a estudar, cantar, ou outras, é que incidirão mais tarde num Eu totalizado, único e singular. Por exemplo, se faço uma graduação de psicologia, e gosto disso, estudo para isso, conseqüentemente, me tornarei uma psicóloga, e, obviamente, não uma cantora. Ao passo que se repudio o estudo e adoro cantar, não será como uma estudiosa que me totalizarei.
A ação demanda tempo para se consumar. Ela implica articulações, momentos. A esses momentos correspondem consciências concretas, activas e a reflexão que se dirige sobre elas apreende a ação total numa intuição que a toma como unidade transcendente das consciências activas. (SARTRE apud EHRLICH, id. ibid., p. 65)
Os estados e as ações, vividos concretamente, ou seja, nas relações objetivas, levam as qualidades, que por sua vez, são totalizações desses estados e ações experimentados objetivamente. As qualidades são apropriações que distinguem cada pessoa como sendo um determinado tipo de ser, ou seja, alguém calmo ou nervoso, um estudante ou um cantor, etc.
As qualidades são facultativas, evidenciando o fato de que, algumas pessoas são, objetivamente um tipo de ser, mas não necessariamente se totalizam como sendo o que aparece objetivamente. Uma pessoa estudiosa, por exemplo, pode efetivamente, ser estudiosa, mas não se totaliza como sendo. (Cf. ERLICH, ib.idib, p. 66)
Com estes esclarecimentos retorna-se a questão do homem, enquanto corpo/consciência, em seu desenvolvimento. O homem ou o “Eu” desse homem, ou ainda, a personalidade, se constitui nas relações, no mundo concreto por meio das experiências, ações e tarefas realizadas. Sendo que, essas experiências totalizadas constituirão os estados e as ações que, por sua vez, totalizados, viabilizarão, ou não, qualidades de ser. (ERLICH, 1996, p. 67)
O homem, viabilizado ou não pelas escolhas que fizer ao longo de sua existência, em função de um projeto de ser, na esperança de se des-coisificar, surgirá da desalienação como uma totalidade. Singular, posto que é, um “Eu”, porém, universal, na medida em que requer fatos, relações e responsabilidades para ser este “Eu”.
Portanto, o Eu (Ego) está no mundo, faz parte dele, e não existe sem consciência, que é sempre primeira em relação à constituição desse Ego. A personalidade é, então, uma articulação daquilo que se experiencia, constituindo-se ao passo que se vive. É aquilo que se refletiu[9] e se totalizou no decorrer das experiências, e que possibilita o reconhecimento de um “Eu” que agiu de determinado modo e não outro.
O homem, na concepção existencialista é responsável por si mesmo [e] (…) por todos os homens (…) escolhendo-se, ele escolhe todos os homens (SARTRE, 1987, p. 6).
Sartre possibilitou a compreensão de um homem que se dirige pela esperança, e não mais anda para a morte[10].
Angústia para os papados estabelecidos deve ser ver o que Sartre conseguiu:
· fez da subjetividade que outrora era o princípio do idealismo, um momento do processo objetivo no qual a exterioridade é interiorizada - sendo senão uma totalização pronta para ser destotalizada,
· demonstrou que existe como desprender-se da posição de coisa que o homem ocupava[11], deixou que o homem soubesse que pode escolher-se,
· fê-lo ver que é livre, sem possibilidade de não sê-lo,
· colocou-o como construtor de si e de um modelo universal de homem,
· estabeleceu as condições de possibilidade do homem, como um fenômeno que é,
· propôs, tanto quanto experimentou, o engajamento e a superação.!
De todos os lados, por todos os cantos estão espalhadas as plumas que jogaram do alto das torres da igreja idealista, e o que fazer, já que não se consegue mais apanha-las?
Ou tomamos a atitude de olhar as plumas caindo por todos lados, conformados com a situação, ou nos atemos a pegar as que estão ao nosso alcance. O que fará mais diferença? Pensar que ’ o sem remédio remediado está’ ou ‘correr atrás do prejuízo’?
Deixando de lado a sátira, opto pela segunda alternativa. Há de se fazer algo com o que fizeram da dita psicologia. Por mais difícil que pareça contornar as ações que nos trouxeram até esse tempo onde a racionalidade é impregnada de misticismo, devemos nos direcionar para o futuro… Não que devamos esquecer as tenebrosas descobertas teóricas, como a de Descartes, por exemplo, que nos tira, sob sua perspectiva, toda a possibilidade de ser… mas que ela nos sirva como exemplo do que não pretendemos produzir. Podemos ainda modificar as gerações presentes, contribuindo para que as pessoas conheçam outras possibilidades que essas já ditas. Temos aí, em termos de superação, todo o esforço teórico de Sartre, que teve que o cuidado de dedicar-se as prioridades técnicas, em vez de vestir-se do modismo ao neo(novo).
Alguns justificam uma escolha que fazem, já fadada ao fracasso, dizendo que Sartre fez o que já estava aí pronto, mas esses não se propuseram a fazer o que Sartre fez. Afinal, bem mais fácil é elucubrar a respeito de “achismos” vigentes, do que doar-se à produção de um conhecimento que seja honesto e eficaz.
O idealismo com sua teimosia em não encarar a objetividade como ela se impõe, acabou por decidir o futuro de uma ciência que se vê hoje perdida em meio a teorias desprendidas de qualquer sustentação objetiva.
A psicologia está onde está, do modo lastimável em que se encontra, porque muitos foram os representantes de algo que não se precisa estudar, do deixa o rio correr, do naturalismo, do tudo é inconsciente, do você é capaz creia na inspiração divina.
Mas há de fazer efeito, o esforço dos que empreenderam suas vidas em contrapor tais proposições. Há de chegar o dia onde os psicólogos, como também outros profissionais, não estejam mais estourando com vidas alheias, como se estivessem estourando foguetes de festas. Quero estar lá para ver!
Referências bibliográficas
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo : Martins Fontes, 1998.
CASTRO, Daniela J., SCHNEIDER, Daniela R. Contribuições do Existencialismo Moderno a Psicologia Social Crítica. In: Cadernos de Psicologia. Instituto de psicologia, Rio de Janeiro : UERJ, 1998 (p. 139-148).
CASTRO, Fernando. Psicologia: Acesso ao Objeto. In: BERTOLINO, Pedro. A Personalidade. Florianópolis : NUCA – Edições Independentes, 1996.
________. A Problemática da Definição de Psíquico nos Estudos de Wanderley Codo e Colaboradores sobre o Sofrimento Psíquico e Trabalho. Tese de Mestrado- Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2001.
DESCARTES, René. Discurso do Método. São Paulo, Ática, 1989.
EHRLICH, Irene Fabrícia. Ontologia Fenomenológica: Primeiro Passo Para a Fundamentação de uma Psicologia Científica. [Trabalho de Formação em Psicologia Fenomenológico-Existencialista, NUCA, Florianópolis, 1994.
FRAGATA, Júlio. A Fenomenologia de Husserl como Fundamento da Filosofia. Brasil : Livraria Cruz, 1959.
LAING, R. D. & COOPER, D. G. Razão e Violência - Uma década da Filosofia de Sartre (1950-1960). 2ª ed., Petrópolis : Vozes, 1982.
KNELLER, George F. A Ciência como Atividade Humana. Rio de Janeiro : Zahar, 1980.
MASON, I. F. História da Ciência. Rio de Janeiro : Globo, 1964.
SARTRE, Jean Paul. O Ser e o Nada. Rio de Janeiro : Vozes, 1997.
[1] Frase extraída de uma das aulas de exposição do curso de formação.
[2] Seja ele um problema fisiológico, em si tratando, de um profissional da medicina, de um problema educacional, como é o caso que implica o pedagogo, ou ainda,um problema de relações, que diz respeito a nós psicólogos.
[3] Nós que pretendemos o bem estar humano mediado por instrumentos científicos.
[4] E a poucos o parece!
[5] Já visto com mais detalhes ao longo do trabalho.
[6] Melhor talvez afirmar, tal como propõe FRAGATA (1959, p. 83-85) idealismo transcendental.
[7] Tendo como pressuposto tal teoria.
[8] Que de clientes não tem nada, já que nem estão cientes de seus direitos…
[9] Existindo a possibilidade de que seja totalizada após uma reflexão espontânea e, portanto, alienada.
[10] Como em Heiddeger
[11] Tão confortável para alguns, aliás…
You know so many interesting infomation. You might be very wise. I like such people. Don’t top writing.
julho 6th, 2009 at 21:32Thanks.. I like so much to take notice something! Observe is learning with the Life. Return more.. Kisses
julho 7th, 2009 at 23:28